Desenvolvimento Infantil – Os 2 anos

abril 19, 2015 Geral, Infantil

É sempre muito bom quando a escola abre as portas para o trabalho da Psicologia! Essa semana o Espaço Educacional Infantil Anjos da Terra (www.anjosdaterra.com) me convidou para falar em uma reunião de pais dos alunos de dois aninhos. Foi um prazer poder tirar as dúvidas dos pais e professoras e falar sobre essa fase tão importante do desenvolvimento!

Segue um pouquinho do que foi falado:

Desenvolvimento

Características do desenvolvimento

A criança de dois anos, em sua maioria, já sabe falar, andar, imitar tudo e todos que observa. Ela está no período de transição de um estágio Sensório Motor (Segundo Jean Piaget), onde o mundo é descoberto através dos sentidos, para o estágio Pré-Operatório, quando ela já é capaz de compreender seu mundo de outras formas, como a partir de representações simbólicas (uma caixa é um foguete, uma colher é um avião de carga). O egocentrismo é uma característica marcante dessa fase, pois elas acreditam que são o centro de tudo o que acontece ao seu redor e que seus desejos e necessidades são prioridades para todos e devem ser prontamente atendidos. É somente no próximo estágio, o Operatório concreto, que elas serão capazes de usar a lógica para chegar a soluções de problemas concretos, mas já aos dois anos elas conseguem absorver regras e limites, e começam a identificar alguns sentimentos (como raiva, tristeza e alegria).

A curiosidade dessa fase faz com que ela queira descobrir o mundo ao seu redor todo de uma só vez e acaba por ficar mais agitada. A linguagem se desenvolve com rapidez, principalmente se bem estimulada, e é capaz de se socializar, apesar de muitas vezes precisar da mediação de adultos. São os aventureiros desbravadores de um mundo desconhecido para eles, que agora já conseguem explorar de pé!

– A adolescência dos bebês – “The Terrible Two”

Calvin bravo
Então o seu pequeno, que até bem pouco tempo só fazia “arte” na hora de trocar fraldas e de comer – espalhando comida por todo canto – agora já sabe falar algumas palavras, anda pela casa pegando tudo o que vê pela frente, sobe nas cadeiras e derruba o que estiver em cima da mesa. Curioso, quer descobrir de todas as formas todo esse mundo novo que está se apresentando para ele, testando suas possibilidades, seus limites, e o dos pais também!

É nessa fase, de um ano e meio aos três anos, que os pequenos começam a exercitar a independência e autonomia e muito frequentemente tem crises e “birra” quando não conseguem o que querem, na hora que querem. Mas não é verdade que até a poucos meses atrás eles realmente tinham seus desejos prontamente atendidos? Eles levam tempo para aprender que não é mais assim e que precisam lidar com algumas frustrações vindas do “não” dos pais, professores e coleguinhas de classe.

É preciso paciência por parte dos cuidadores para explicar os porquês dos limites e para ignorar as “birras”. Sim, essa é a melhor estratégia: ignorar e se afastar. Por mais difícil que seja, sempre que a criança se jogar no chão e chorar por não ter seu desejo atendido os pais devem deixar que ela se acalme e sair de perto, quando possível, sem dizer nada no momento do choro. Somente quando a criança se acalmar deve conversar sobre o que aconteceu, pois no momento de crise ela não vai conseguir escutar e compreender. Se estiverem em um lugar público, leve a criança para um lugar mais calmo ou tente distraí-la até que se acalme.

Bater e gritar nunca são alternativas, pois nessa fase a criança aprende por modelação, observando os comportamentos das figuras de referência e irá aprender que as melhores estratégias quando está chateada são bater e gritar também.
Essa “adolescência dos bebês” faz parte do desenvolvimento natural da criança, mas a paciência e dedicação dos pais com certeza fazem a diferença para que ela seja mais tranquila tanto para eles próprios quanto para a criança.

– Nhac Nhac… Por que as mordidas são tão comuns até os três anos?

Não são somente os pais que se queixam do comportamento dos pequenos na fase do “Terrible Two” (os terríveis dois anos). As escolas também têm que lidar com uma situação bem comum nessa fase: as mordidas nos coleguinhas! Nhac nhac… choro alto… pais de cabelos em pé! Mas por que isso acontece? Muitos são os motivos, mas podemos citar alguns:

– Apesar de a maioria crianças já saberem falar aos dois anos, a capacidade de linguagem ainda não é bem desenvolvida, por vezes dificultando que estas expressem verbalmente seus desejos e insatisfações. Assim, se não gostam de algo que o coleguinha fez, se precisam chamar atenção deles ou se estão chateados por algum motivo… Nhac!

– A descoberta do mundo se dá pelo toque, pegando, acariciando e mordendo as coisas. Tudo o que querem conhecer elas colocam na boca e, como nessa idade os dentinhos já estão presentes, as mordidas acabam acontecendo. Quero descobrir como é o bracinho do coleguinha? Quero saber qual vai ser a reação do outro? Nhac!

– É muito comum quando vemos uma criança fofinha dizermos “Que vontade de morder essa bochechinha!” e por vezes até carinhosamente mordermos mesmo. Mas com esse aparentemente inocente gesto estamos ensinando a criança a morder, mesmo que seja como forma de demonstrar carinho. O problema é que a ela ainda não tem noção da força que deve aplicar para não machucar, e isso acaba machucando quem ela, muitas vezes, só quer acariciar. Acho o coleguinha fofinho? Nhac!

– A mordida também pode ser uma forma de mostrar que a criança está passando por dificuldades emocionais. Se esta estiver vivenciando situações de conflito em casa, estiver tendo que lidar com a chegada de um irmãozinho ou não estiver recebendo atenção e carinho devidos, por exemplo, ela pode demonstrar com as mordidas que algo não está legal. Estou triste e não consigo lidar com isso? Nhac!

Mas então, o que fazer?

Em primeiro lugar deve-se compreender que as mordidas fazem parte do desenvolvimento, sem julgar e estigmatizar quem mordeu. Mas elas não devem ser tampouco ignoradas. Deve-se mostrar para a criança que, em primeiro lugar isso machuca quem está sendo mordido e dói muito! Em segundo lugar, é necessário mostrar para a criança outras formas de demonstrar o que quer e o que sente, com firmeza, mas sem brigar. Se a criança mordeu porque não gostou do que o coleguinha fez, mostre a ela que ela pode dizer a ele e dê exemplos de como dizer. Se ela mordeu porque o coleguinha ou o irmão não quis emprestar o brinquedo, diga que ele não é obrigado a emprestar e que ela pode esperar e brincar com outra coisa. Se a mordida se deu porque ela está triste, mostre como lidar com esse sentimento e verifique se o que a está deixando tristonha pode (ou deve) ser modificado.

– “Os anos dourados” – A capacidade cognitiva dos 0 aos 6 anos

A ciência já comprovou que durante toda a nossa vida estamos em constante produção de neurônios, ao contrário do que se pensava até bem pouco tempo. Conseguiu comprovar também que é na fase dos zero aos seis anos, conhecida como “Os anos dourados”, que nosso desenvolvimento cerebral está mais intenso. Nunca seremos tão propensos a receber e absorver estímulos do ambiente e tão capazes de produzir neurônios quanto nessa fase do desenvolvimento humano.
Mas o que isso significa? Significa que as experiências vividas na primeira infância e os conhecimentos e aprendizados adquiridos nessa fase são de extrema importância para o desenvolvimento saudável. É nesse período que devemos ficar mais atentos aos relacionamentos e ao tipo de educação e direcionamentos fornecidos à criança. Inserção de regras, rotinas e limites bem estabelecidos, pais em concordância com a forma de educar e passar valores, tempo de qualidade com os cuidadores e demonstrações de carinho e amor não podem faltar!

A educação – papel dos pais e cuidadores

“Os modelos primários de interação tendem a pautar relações sociais futuras, ou seja, tendemos a reproduzir nas interações interpessoais o registro que nos foi “ensinado” precocemente nos cuidados parentais” – Caminha e Cols (p.33)

– Educar X Fardo

Educar é uma arte que demanda tempo e investimento emocional. É preciso estar presente e atento aos filhos, lidar com a frustração de errar algumas vezes e se perguntar “Será que estou sendo um bom pai/mãe?”. Mas educar não é sinônimo de fardo. É, sim, deliciosamente complicado!

Não é esperado que se acerte o tempo todo, que se dê conta de tudo, mas é necessário que haja o investimento necessário de tempo, energia, paciência e autocontrole para se tentar o máximo que puder. Cada fase deve ser aproveitada ao máximo em sua complexidade e nas maravilhas e alegrias das descobertas.
Amar profundamente e incondicionalmente, fazer a criança se sentir segura nos seus sentimentos por ela, elogiar sempre que possível, dar limites, estabelecer uma rotina saudável, brincar, rir junto e muito mais! Educar é sinônimo de pais em constante construção para filhos bem construídos e fortalecidos!

– Limites, Regras e Rotina

Limites:

Especialmente, porém não exclusivamente, na primeira infância, o limite tem papel crucial na constituição psíquica dos sujeitos. São os limites impostos nessa fase que auxiliarão no desenvolvimento de fatores como a empatia, compreensão e obediência a regras morais e sociais, capacidade em lidar com a frustração e em regular o próprio comportamento para um adequado convívio social. Seguem algumas considerações importantes acerca dos limites:

– Deve ser passado de forma breve, direta, firme, com contato olho no olho. Chantagens emocionais, ironia ou humor, longos discursos, punição física e tom de voz muito alto vão fazer o efeito contrário do esperado nessas situações.

– Equilíbrio é a palavra de ordem. Permissividade ou rigidez excessivos são igualmente prejudiciais ao desenvolvimento.

– Deve ser claro, realista e estável. Os pais devem entrar em acordo sobre os limites que devem ser impostos e dizer claramente o que esperam da criança.

– Cada limite vem acompanhado de um porquê. A criança precisa de explicação para internalizar o limite. E “porque eu disse que sim” ou “porque eu mando” não são explicações plausíveis.

– Deve ser adequado à faixa etária da criança. Antes dos dois anos as estratégias indiretas, como a distração, tem maior eficácia, já que até essa idade ela ainda não compreende bem as explicações dadas. A partir dos dois ela está exatamente buscando explicações em tudo o que faz e compreende muito mais.

– Explicar sempre qual será a consequência para uma transgressão aos limites impostos. Deixe bem claro o que pode acontecer caso ela não obedeça. Fique atento para que a punição seja compatível com a gravidade da transgressão.

– Não devem depender do humor dos pais. Regras são regras e não podem ser deixadas de lado caso os pais estejam cansados com o trabalho, sem paciência para chamar a atenção ou muito felizes por alguma razão. Elas existem por um motivo e a criança deve aprender que precisam ser seguidas por serem importantes. Deixar que fique a mais assistindo TV ou que não guarde os brinquedos por motivos como esses vai deixar a criança confusa e dificultar a internalização da regra.

– Limites e regras podem e devem ser modificados caso não estejam funcionando muito bem (podem estar muito rígidos ou com expectativas muito elevadas, por exemplo), porém nunca devem ser burlados. Eles são necessários e trazem segurança para as crianças.

– Pais também seguem regras e devem cumprir. Se é regra da casa não tomar refrigerante em dia de semana, por exemplo, os pais não devem tomar também. Se os palavrões e mentiras são proibidos, os pais não devem fazê-los.

Rotina:

As crianças gostam e precisam de rotina. Ela é importante para que a criança saiba como lidar com o desconhecido e para que ela saiba o que esperado dela e o que ela pode esperar do seu dia. Adotar uma rotina fixa de procedimentos para a hora de dormir, por exemplo, é de grande ajuda para que a criança consiga ter um sono tranquilo. Sono esse que é essencial para a regulação hormonal necessária para garantir seu aprendizado durante o dia.
Entretanto, diferente dos limites, a rotina precisa de flexibilidade, sempre acompanhada de explicações prévias. Por exemplo: se seu filho toma banho antes de ir a aula e antes de dormir desde cedo, ele irá se preparar para isso e não reclamará quando for a hora do banho. Já é esperado. Mas se um dia ele chegar da escola sujo de lama e precisar tomar banho assim que chegar ele irá entender que é uma exceção e que isso não é um problema.

Referências:

Weber L. Eduque com carinho – para pais e filhos. Juruá Editora, 2014.

Faber A., Mazlish E. Como falar para seu filho ouvir e como ouvir para seu filho falar. São Paulo: Editora Summus, 2003.

Caminha M., Caminha R. & Cols. Intervenções e treinamento de pais na clínica infantil. Porto Alegre: Sinopsys, 2011.

Site: http://m.zerohora.com.br/288/vida-e-estilo/4704443/saiba-como-agir-na-fase-da-adolescencia-dos-bebes-entre-um-ano-e-meio-e-tres-anos